não sou brasileiro...
eu penso muito rápido... o que é uma qualidade... às vezes, tento falar no mesmo ritmo de meu pensamento... e isso é um grave defeito... não raro tenho que repetir o que digo (por mais de uma vez) para me fazer compreendido... mas, não pensei que chegasse a tanto...
voltava eu de uma viagem, quando tive que parar em são paulo por conta de uma conexão... aeroporto de congonhas... e eu lá... uma hora e meia de espera... um estômago vazio e meio de fome... afinal, já se foi o tempo em que comida de avião bem valia uma refeição...
aproximo-me de um quiosque para verificar que quitandas estavam expostas... vejo um quiche... mas, não conseguia decifrar que sabores eram aqueles... volto-me para o atendente e lhe pergunto:
- tem quiche de quê?
imagine, porém, essa frase dita numa velocidade... er... digamos, acima da média... tente fazê-lo... pois bem... assim o disse... o atendente me olhava aflito... de chofre começou a gesticular e, gritando, soletrava para mim:
- a...lho po...ró!.... a...lho po...ró!
olhando aquela cena dantesca, comecei a duvidar da capacidade intelectual do esforçado atendente... isso só podia acontecer comigo... embora tenha achado louvável a tentativa de incluir um excepcional no mercado de trabalho, estava irritado de que logo eu seria o elemento propiciador da inclusão social... o guri, vendo meu olhar de incredulidade, espanto e enfado, grita para as colegas de trabalho:
- alguém viu a neide?... tô com um gringo aqui!
é... acho que preciso de um fonoaudiólogo... afinal, a tecla sap não é de série...
***
ps: estarei viajando por uma semana... mas, eu volto... sobrevivam, sim?
Escrito por doug às 18h35
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o que te toca quando toca?
adoro ser surpreendido pela rádio enquanto estou dirigindo... ouvir uma música de que gosto sem que a tenha programado é uma dádiva dos céus... ou, usando uma expressão da liv, é um verdadeiro orgasmo auricular... é claro que tenho vários cds no carro... ultimamente, tinha até criado um sistema de cotas para negros: praticamente só ouvia paula lima, seu jorge, silveira, vander lee e bukassa... mas, escolher um cd e pô-lo para tocar não se iguala à emoção de girar o dial e encontrar, de chofre, a minha música preferida... o bom de viver é mesmo isso... o inesperado que insiste em se jogar à nossa frente... portanto, se você tem teimado em escolher a dedo a próxima música de seu life’s dvd player, esqueça... ligue o rádio e deixe que o acaso lhe traga luz... imprevista luz...
ps.1: sim, já estou melhor... obrigado a todos que tentaram me consolar... e também aos que, constrangidos por tamanha desolação, resolveram beber uma dose em meu nome... mais uma vez, dou as costas ao canyon e volto à planície...
ps.2: sei não... mas ainda acho que viver merecia um fundo musical... como aqueles desenhos old da disney... eu, por exemplo, escolheria um cello soleníssimo para os momentos normais da vida e um tin whistle enlouquecido para a hora de descer a montanha russa... um pouco escocês, mas sem o kilt... e você?... qual seria o fundo musical de sua história?
Escrito por doug às 17h13
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sem pintura, sem disfarce...
eu sei que não deveria escrever nesses dias em que acordo deprimido... porque amanhã ou daqui a dez minutos meu humor volta ao normal... bipolares são inconstantes... e me arrependo de cada palavra dita com dor ou com lágrimas nos olhos ou com um sentimento de vazio inexplicável ou com tudo ao mesmo tempo agora... se você já pensou em pular do prédio hoje, lhe aconselho a ler o post anterior... vejam lá... estou até engraçadinho... dando conselhos, falando como um profundo conhecedor do comportamento humano... mas, não hoje...
hoje só estou escrevendo pelo ritual... purificação de sentimentos estranhos, escusos e indecentes... quem não os têm?... a única certeza é que amanheci me sentindo só... por mais que abrace as pessoas, há todo um canyon em mim que não se preenche... às vezes, prefiro pensar que ele não está aí, rasgando a colina do meu horizonte... mas, dia após dia, a erosão de viver aumenta... e nada a preenche... eu, o canyon e quem?
sou péssimo com as palavras... não com a sintaxe... domino-a muito bem... o problema é muito mais semântico... o que eu digo não atinge o tamanho do que sinto... falo demais, falo de menos... falo: e nisso já erro... houve um tempo em que não falava... e nem havia celular para disfarçar meu silêncio... simplesmente, me contentava em estar em meio aos outros... silenciosamente...
falar me fez ser visto... falar acabou determinando minha profissão... falar ampliou a circunferência de meus amigos bem antes do orkut... mas, falar me faz, às vezes, sentir mais só que em meu silêncio... sim, minha vontade agora seria de ficar quieto, só respirando... se pudesse, pararia até de respirar... só para ver se viver deixa de doer (assim mesmo, cheio de segundas conjugações e sem terceiras intenções)...
eu ainda aprendo a não esperar retornos... e quem sabe eu não consigo voltar a ser o que um dia já fui: silêncio nos lábios e palavras nos olhos... e um abraço verdadeiro sempre pronto para quem chegar...
Escrito por doug às 12h24
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