enfim, as reticências...
o ponto final é por demais taxativo... diz sobre certezas, posturas cristalizadas, pensamentos inquestionáveis... a terra é redonda – e ponto final... os homens são seres bípedes – e ponto final... se observarmos, o ponto final, às vezes, é o início de uma discussão sem fim... “não te quero mais” (ponto final)... e o famigerado ponto final gera choro, ranger de dentes e momentos de desespero que duram até que se perceba que a vida não é feita de pontos finais... viver é reticências... por isso, as uso tanto... deixe-me explicar melhor....
em primeiro lugar, os três pontinhos dizem sobre a inconstância de meu pensamento... o que penso é apenas uma intuição... em dez minutos, a idéia recém-nascida pode me parecer totalmente absurda, um monstro defeituoso que precisa ser jogado no abismo com três golfadas de terra por cima... não tenho o menor receio de desdizer... e desdizer não é desmentir... é apenas deixar o dito pelo não-dito... e ponto, ponto, ponto... reticências que jogam uma interrogação no ar... aliás, reticências são primas em segundo grau da interrogação... só que a interrogação é mais extrovertida... as reticências são um jeito tímido de dizer: será?...
em segundo lugar, as reticências trazem um jeito de não explicitar, mas de tão somente insinuar... e a incompletude faz com que a idéia de quem me lê caiba perfeitamente em meus escritos... sem perceber, nas reticências vocês pensam, dialogam, riem, choram, praguejam, idolatram, coçam o saco, tiram a remela, escoram o cotovelo na mesa e fazem um conjunto com este blog... quando pronuncio as frases e as termino com uma inflexão indecisa na voz, chego a ouvi-los completar a idéia... e assim, na escora dessas falas, tenho inspiração de escrever uma outra frase... e mais uma... e outra...
por fim, reticências me parecem visualmente atraentes... três pontos... porque tudo na vida é trino... a trindade cristã com uma família de pai e filho sem mãe... a trindade hindu com vishnu, shiva e brahma (que não é a número um)... a trindade egípcia de hórus, ísis e osíris... três são os poderes do estado: legislativo, executivo e judiciário... três são os estados da água: sólido, líquido e gasoso... três é um símbolo inconsciente que diz do nosso jeito de classificar... nós sempre buscamos três motivos para tudo... o chocolate lancy tem três bolotas... três pontos é mais que três... é a encarnação de tudo e do todo...
por isso, uso as reticências... embora, eu não seja muito reticente... acho que, no fundo, é um pouco coisa de geminiano: muitas faces, muitas personalidades, muitos pontos... ou, pelo menos, três...
Escrito por doug às 18h39
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não, eu não estou triste... alerto-vos, antecipadamente... mas, há muita tristeza no mundo... nada assim abertamente declarado ou a olhos vistos... mas sua existência latente incomoda... há tristeza indisfarçada no olhar dos outros... ou naquilo que escrevem... às vezes, tenho vontade de abraçá-los e dizer que tudo se resolverá... mas, contenho-me... meu coração não se suportaria no peito se abraçasse todas as tristezas do mundo... visto, então, a capa da indiferença e meu sorriso zombeteiro... pena que meus olhos não consigam fingir tão bem... e, de soslaio, revelam uma amarga impotência... que descolorirá...
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sim, eu adoro as minúsculas... é um meio de subverter a ordem da escrita... porque sempre e a todo tempo tenho que me submeter a alguma ordem: no trabalho, na sociedade, na weltinnenpolitik... mas, na escrita... valha-me, deus... aqui não vou aceitar convenções... afinal, alguns fazem caminhada de goiânia a brasília com bandeiras vermelhas pedindo terra... eu, prefiro as minúsculas...
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sobre as reticências... bem, elas merecem um post só para elas...
Escrito por doug às 17h50
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