sobre comida e filosofia
quando não almoço em casa, sacio-me em um self-service perto do escritório... aliás, almoço sempre depois das 14h30min... coisas de quem tem um relógio biológico temperamental, bem condizente com o temperamento do dono do relógio: eu, por óbvio... mas, isso não vem ao caso... a questão é a variedade de opções desses restaurantes... ao menos, no restaurante em que almoço... tem de sushi a dobradinha, de kani-kani a torresmo, de pizza à baião de dois... é tanta comida que o restaurante se auto-nomeou “nutri shopping”... coisas de laurinha... pois bem, ocorre que apesar das inúmeras opções, com imperceptíveis variações, meu estômago comumente me leva a comer agrião, palmito e queijo de entrada e strogonoff de filé com batata frita e arroz branco depois... e quando digo comumente, na verdade estou tentando evitar o impacto do invariavelmente... é impressionante como sou previsível em questões alimentares... afinal, para que tantas opções, tantas bandejinhas, tantos molhos, tantos temperos, tantas saladas, tantas frutinhas, tantas sobremesas, tantos assados, fritos e cozidos, se eu sempre como a mesma coisa?... percebi que isso me causa um certo complexo de culpa... percebi ainda mais... que todos nós sofremos o mesmo complexo em relação à modernidade... se eu falo três línguas, me sinto culpado por não falar quatro... se fiz um mestrado, não me absolvo pela falta do doutorado... se já li todos os livros do cortázar, me puno por nunca ter terminado um único joyce... a modernidade oferece inúmeras opções, embora sempre façamos as mesmas escolhas... e ninguém está imune ao estranhamento de que há muita coisa por aí que sequer vamos conhecer, tocar, provar ou saber... por isso, hoje resolvi dar o primeiro passo... acabei de almoçar... a propósito, o carpaccio e a macarronada estavam uma delícia...
ana, como nunca confio no orkut, parabéns!
Escrito por doug às 13h37
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quando eu crescer...
quando criança, contrariando todas as expectativas de meus pais, queria ser lixeiro... lixeiro, não gari... gari é o sujeito que se veste de alaranjado, varre as ruas e dorme sob árvores no intervalo do almoço... eu não queria tão pouco... queria é ser lixeiro... daqueles que se penduram nos caminhões de lixo e andam recolhendo os restolhos pelas ruas... para meus então pouco anos, o máximo da adrenalina era saltar de um caminhão em movimento, o que de duas uma: ou mostrava uma aptidão para dublê ou para suicida, embora nenhuma das duas tenha se concretizado... ou nenhuma das três... afinal, não sou lixeiro... embora alguns jurem que todo advogado é um lixo... se eu teria sido um bom lixeiro?... a julgar pela minha preguiça natural para todo tipo de exercício físico, creio que não... mas, quem sabe?... só sei de uma coisa... se eu encontrasse no lixo de alguém, dólares jogados fora por engano, ficaria muito tentado a não devolver... afinal, entre ficar rico e aparecer na campanha feita pelo governo de elevação da auto-estima do brasileiro não sei se optaria pela segunda... mas tudo são hipóteses daquilo que podia ter sido e não foi...
e vc?.... qual era sua pretensão profissional infantil?
Escrito por doug às 12h01
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parlapatorium...
as palavras são explosivas... e no manuseio delas por vezes me firo... e com freqüência muito maior firo aos outros... queria poder ser franco e dizer o que realmente penso... mais que isso, queria saber escolher as palavras certas para poder fazê-lo... mas não sei... estou aprendendo... aprendendo que não é justo pedir silêncio à platéia que aplaude o teatro das vaidades... não quero ser o profeta do fim dos sonhos... a realidade deve ser forte o bastante para se impor... não é preciso que eu a ajude... assim, entre sinais e sons, vou descobrindo que não sei ser humano... vou percebendo que pessoas valem mais que discussões... vou aceitando que o silêncio é o melhor advogado de mim... e silente perceberei quando a tempestade terá cessado... e será muito bom poder pisar o velho sítio...
Escrito por doug às 16h27
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sobre tendências e fugacidade
no começo do ano fui à posse do secretário de cultura de meu município... (não, ele não é meu parente... é um amigo de recente data)... como eu definiria a cerimônia?... festa estranha com gente esquisita... sem bundalelê, é claro... estavam lá velhos escritores de cabelo na orelha e calça no umbigo, marchands de paletó verde abacate e all star, músicos de jeans surrado, pulseira com tachinha e camisa da C&A... além, é claro, desse blogueiro que vos fala – qual criança em piscina de bolinhas, achando tudo aquilo muito divertido... de todo aquele teatro, tão afeito ao ambiente cultural, algo realmente me chamou a atenção: óculos... sim, os óculos... me lembrei que ser míope é uma bosta... óculos são como biquínis da rosa chá... cada estação, uma tendência... sabe aquela moda de óculos de aro minúsculo e lentes não-reflexivas no melhor estilo “não estou usando nada”?... simplesmente, acabou... todos os visualmente prejudicados (para não dizer, quase-cegos) presentes no evento exibiam suas lentes adornadas com verdadeiros aros-moldura pretos, vermelhos, caramelos... inúmeros clones do andré gabeh... me senti como a criança que perde seus óculos 3D no cinema 180º... afinal, lentes de contato não causam frisson... a menos que sejam vermelhas... e, sinceramente, não creio que fique bem fazendo o estilo conde vlad... afinal, passar despercebido muitas vezes tem suas vantagens: não ter que saldar estranhos no banheiro, poder provar dos salgadinhos sem ser incomodado por celebridades em ascensão... é... só sei que feitos os cumprimentos, fomos embora eu, minhas lentes e minha barriga cheia, deixando para trás todos aqueles sorrisos de interpretação, egos inflados e pós-modernidade regada a Andy Warhol... só que sem os quinze minutos de glamour...
ps1: thomaz, meu caro... isso não é nada pessoal...
ps2: ulisses resolveu responder a análise que fiz dele no post anterior... uma resposta mediana... mas uma resposta é sempre uma resposta.
Escrito por doug às 16h30
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